Um inocente sofrendo as consequências de atos e comportamentos de outra pessoa do sistema de relacionamento.

Para entendimento dessa dinâmica é preciso esclarecer que a dupla transferência é antes de mais mais nada um subtipo da identificação. Ou seja, a identificação se dá quando um membro de uma família ou de uma organização se identifica inconscientemente com comportamentos de um membro anterior desse sistema, adotando atitudes, pensamentos e sentimentos como se fosse aquele membro anterior.
Normalmente a identificação ocorre por questões de exclusão sistêmica. Alguém, um membro atual, assume os mesmos comportamentos disfuncionais de um membro anterior para que aquela exclusão, originada por questões não resolvidas ou esquecidas, sejam vistas e resolvidas a partir de um novo membro desse sistema. Assume um papel inconsciente, ou seja, quem se identifica sistemicamente não tem consciência dessa identificação. A psicologia o denomina “paciente identificado”, ou seja, aquele que expressa os problemas da família através de seus sintomas, muitas vezes por se identificar com angústias ou papéis não resolvidos de outros membros. Esse objetivo “inconsciente”, tem como pano de fundo trazer à superfície dificuldades vividas: vergonha, medo, subjugação, palavras não ditas e situações escondidas para que haja ressignificações, mudança de padrões, evolução da consciência grupal, com o objetivo único de que a Felicidade se instale em todo sistema.
Não estou me referindo aqui àquelas identificações positivas que ocorrem principalmente nos primeiros anos de vida entre mãe e filhos, pai e filhos, necessários para a sua inicial inclusão em uma sociedade na transmissão de valores e cultura, sentimento de pertencimento e na construção de um caráter e personalidade próprios.
Também não devemos entender a identificação como um “Modelo adotado” por alguém, pois quando queremos seguir um modelo o fazemos de forma consciente. Na identificação, ao contrário, sistemicamente falando, ocorre de forma inconsciente. Se alguém se identifica com alguém do sistema, na maioria da vezes não tem conhecimento de como o identificado se comportava em sua vida cotidiana.
Entendido o aspecto da identificação no conceito sistêmico podemos agora abordar com maior facilidade e entendimento a questão da dupla identificação.
Este fenômeno da dupla identificação ocorre quando uma pessoa se identifica com uma pessoa do seu sistema que foi injustiçada, subjugada, maltratada e por algum motivo não pode resolver essa situação por diversas questões daquele momento e, nessa identificação, começa a manifestar a um terceiro toda sua indignação e raiva não manifestos por aquele membro que se identifica. É como se quisesse, inconscientemente, fazer justiça àquele membro, mas utilizando-se de uma outra pessoa que acaba pagando o pato.
Bert Hellinger faz citação em seu livro Ordens do Amor de um caso ocorrido com uma participante de um seminário de constelação familiar: o seu relacionamento com o marido estava péssimo. Ela vivia agredindo o marido com palavras de ódio e raiva, sem um motivo aparente, uma vez que o marido a amava e se dedicava a ela incondicionalmente. Ao abordar o assunto em seu atendimento, Hellinger perguntou a ela se exista alguém na família que teria motivo para ter raiva de seu companheiro e não pode expressar essa raiva. Ela respondeu, “minha avó”. “Ela tinha um restaurante e se dedicava a ele com muito esmero, mas seu marido, meu avô, muitas vezes a retirava do salão de atendimento com muita violência, até puxando-a pelos cabelos. Tudo isso na frente dos clientes”. “Minha avó não pôde manifestar a sua indignação e raiva do marido”. Ao se identificar inconsciente com sua avô, descarregava toda a sua raiva identificada em seu marido que a amava. Ao tomar consciência dessa identificação e através de um simples movimento de constelação o seu relacionamento com o marido melhorou de forma esplendorosa.
Agora faço uma pergunta: a dupla identificação pode ocorrer também nas empresas?
No meu entendimento este fenômeno pode ocorrer em qualquer sistema. Um funcionário atual de uma empresa pode se identificar com um funcionário antigo que foi injustiçado e maltratado por um diretor ou gerente anterior e descarregar essa identificação no dirigente atual. Por isso, é importante em uma constelação organizacional fazer uma retrospectiva de fatos ocorridos na história da empresa para que se possa colocar em ordem sistêmica a empresa através de reconhecimentos e inclusões daqueles que foram de certa forma excluídos e que não tiveram oportunidade de manifestar essas injustiças. Só assim a plena prosperidade de uma empresa poderá se manifestar.
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